Apaixone-se pelo diferente

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Esta não é uma história de amor, ou talvez seja. Se alguma vez, você se sentiu na sua casa, mesmo estando a quilômetros dela, sentiu um perfume que transladou-lhe em um abrir e fechar de olhos; ou se você quis dobrar a página em um momento da sua vida e congelar uma imagem para depois vivê-la mais uma vez. Então, deixe-me contar uma curiosidade sobre dois países com um mesmo sabor.

Já sentiram esta sensação, quando a pele das mãos e dos pés se arrepia, quando a velocidade do fluxo sanguíneo parece diminuir e, de repente, um reflexo involuntário os obriga a juntar as extremidades em busca de algum refúgio; seus dedos tímidos começam a se entrelaçar na procura de companhia, e a única solução que resta é dar um pouco do seu calor para abriga-los?

Frio, isto mesmo: o frio. Assim como em Bogotá, poucas pessoas imaginam que, em Brasília, pode-se tremer apenas cheirando-o, apenas tocando-o. Na verdade, escrevo a 12 graus Celsius, cercado por nuvens de um céu que quase nunca está nublado. As ruas parecem mais cinza do que o habitual, um cheiro familiar de chuva atravessa a minha janela. Brasília, hoje, amanhece mais “bogotana” do que nunca.


Esses momentos de sinestesia que transladam a mente e, até mesmo, o corpo me cruzam com frequência. Talvez seja por isso que aqui eu me sinta em casa. Este país e a Colômbia compartilham da mesma magia, daquela que conta sobre a lenda do fio vermelho na mitologia asiática, e do mesmo tipo de mistério, quando se tem a sensação de já ter conhecido aquela pessoa antes.

Este lugar é incrível. Aqui chove em um lado da calçada, mesmo que outro esteja completamente seco. Pode ter um céu sem uma nuvem ou pode cair uma tempestade estrondosa que o opaque. Você sente uma sensação térmica de quase 40 graus Celsius e, simultaneamente, força os habitantes a usarem casacos e jaquetas, tudo em um mesmo dia.

Em Bogotá, uma pessoa me falou: “Bogotano que se respete sabe que si amanece soleado va a caer un palo de agua por la tarde” o que se traduziria para: Bogotano que se respeite sabe que, quando o dia amanhece ensolarado, pela tarde cairá água para caramba. Foi na savana de Bogotá que ganhei as insolações mais intensas da minha vida. Nos últimos anos, a chamada “geladeira da Colômbia”, Bogotá, fica cada vez mais quente. Doa a quem doer, agora já se pode usar chinelo no lugar em que antes não era aceitável.

Esses dois lugares não compartilham apenas curiosidades meteorológicas. Em Bogotá, vivem pessoas de todas as regiões do país, Medellin, Barranquilla, Cucuta, Cartagena, Santa Marta, Cali, entre outras, e isso permitiu as mesmas rivalidades regionais fúteis que acontecem no Brasil. Em particular, o bogotano (nascido em Bogotá) jura e acha que fala o melhor espanhol, tem um sotaque neutro e afirma que usar calças jeans e chinelos é brega. Bem candangos, né? Aqui, pelo menos, sabem dançar melhor. Na Colômbia, falaríamos “se mueve mas un kumis, que todos nosotros los bogotanos juntos”, ou seja, dançar não é nosso forte. Por isso, é mais fácil mexer um kumis (iogurte consistente típico da região) do que fazer a gente se mover.


Até a corrupção é compartilhada. Poucos dias atrás, veio à tona um escândalo em que, mais uma vez, o ex-presidente da Colômbia Álvaro Uribe Velez (que já terminou o mandato, mas continua a lascar o país) se viu envolvido em um ato corrupto relacionado a sua gigantesca fazenda. Foi esse mesmo herói presidente que propôs promoções e recompensas a todo militar que entregasse vivo ou morto um membro das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Isso permitiu que generais e coronéis matassem civis, como mendigos e pessoas realmente pobres. Os oficiais fantasiaram os cidadãos de membros das FARC para conseguir o que queriam. Ah! Quem dera que tivesse acontecido um impeachment lá em 2009. Ou mesmo agora, que se descobriram as ilegalidades do atual presidente da Colômbia com financiamento de campanha pela Odebrecht.   


Mas, ei! Nós também compartilhamos gostos culinários. Para quem não sabe, a bandeja paisa é um prato típico colombiano e é bastante parecido com a feijoada. Enquanto na Colômbia tem arepas, aqui tem tapiocas. A diferença é que a arepa é feita a partir de farinha de milho. Se você compara o refrigerante Colombiana com Pitchula de Guaraná, percebe que eles têm exatamente o mesmo sabor. O queijo minas seria Queso Campesino, o pão de queijo, pan de yuca; aqui coxinhas e lá empanadas. Porém, devo dizer-lhes algo que achei muito estranho: o amor por abacates. Só aqui vocês os bebem como vitamina doce e, cá entre nós, é horrível.


Quando falamos de música, o que mexe a vida noturna, na Colômbia, é o reggaeton e o vallenato. O primeiro é tipo um funk mais light. O outro é uma espécie de sertanejo estranho que ainda não decifro nem encontro sabor algum. Embora o vallenato não seja tão legal, algumas músicas fazem você cantar alto no buteco. Também recomendo a vocês ouvirem boleros, salsa ou mesmo merengue, por quê não? Outro ritmo importante, na Colômbia, é o rock. Atualmente, em Bogotá, ocorre o maior festival de rock da América Latina. São três dias de rock, respeito e cultura; artistas brasileiros, como Sepultura e Ratos de Porão, já se apresentaram no festival.


Além disso, há semelhanças linguísticas. Se você acredita que “bacana” é uma expressão brasileira, lamento informá-lo, também a encontrará na Colômbia. O português, como o espanhol, foi modificado com o passar dos anos. Ambas as línguas são altamente complexas, e as pessoas reduzem expressões e palavras, como “você” (que vem de “vossa mercê”). No meu país, também temos palavras que significam absolutamente tudo, como o “trem”, que para nós seria a “vaina”. Mas, em geral, é muito parecido. Até os xingamentos você conseguiria entender rápido. Embora devo dizer que xingar em português é cinco vezes mais libertador.

São poucas as diferenças que encontrei entre os dois países. E essas talvez sejam as razões  que me levaram a voltar mais uma vez. Não falo sobre políticas nem costumes, ou sobre economia, mas sim sobre as pessoas. Este país é um lugar de contrastes: na praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, você pode ver a bandeira LGBT no alto; na universidade, você pode ver um homem de saia, e nada acontece. Aqui há cores em cada canto que você visita, desde a mulher loira com olhos claros, até as maravilhosas mulheres afro. Aqui tem pele com tinta, e isso é admirado: os professores param a aula para elogiar e saber mais sobre suas tatuagens. Ver duas mulheres apaixonadas uma pela outra. Duas mamães (Sim! Duas mães) sambando, sorrindo e beijando as suas filhas, entre o público de um festival, que comemorou os 57 anos de Brasília, é uma das mais belas imagens que sempre carregarei comigo.

Sem dúvidas, isso já valeu a viagem! Aqui tem vida na diferença e amor na diversidade. Foi aqui onde eu aprendi que o valor de um povo se encontra na capacidade de apaixonar-se pelo diferente!

Texto por Santiago Almeida
Arte por Leticia Coury 

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