Homens e Caranguejos

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Homens se misturam, se confundem em meio à lama do manguezal e se tornam caranguejos natos. Em Recife, nos anos 90, surgiu um desconforto com a sensação de isolamento da cidade e com a mesmice dos sons e ideias que surgiam. Cansados disso, Chico Science e Fred Zero Quatro, a dupla de amigos pioneira no novo som que aparecia, tiveram uma epifania. Esses e outros amigos, então, resolveram criar um movimento para renovar Pernambuco.

Iniciaram uma espécie de pesquisa de campo. Deram sangue novo à cena pop brasileira com algo que conversasse com a geometria de Recife, com a diversidade e com o mangue. Quiseram levar a cultura popular para frente, com festas locais que misturavam o som do maracatu, rock, rap, embolada, pop e forró. Trouxeram letras que englobavam o caos do cotidiano, os problemas sociais e a música urbana, sem nunca sair da realidade de Recife. Sempre traziam nas canções uma atitude intensa e popular.

No meio dessa pesquisa, as obras literárias do sociólogo e pensador pernambucano Josué de Castro, falecido em 1973, aparecem. Chico Science, o astro do mangue, se encantou pelos textos deixadas por Josué: “Geografia da fome – o dilema brasileiro: pão ou aço”, “A festa das letras” e “Homem e caranguejo”. No último texto ele ilustra o cotidiano de uma comunidade que cresceu do mangue no bairro dos Afogados, em Recife, na primeira metade do século XX. A partir disso, Chico começou a formular o que de fato viria a ser a cena mangue, trazendo, também, todos os conceitos antes criados com seus amigos durante as festas locais.

O próprio nome de Chico Science nasceu de uma brincadeira. A justificativa para o Science é de que ele é o cientista dos ritmos. A brincadeira séria desses amigos foi crescendo e assim nasceram os primeiros grupos musicais — formados por Chico e Fred Zero Quatro — Mundo Livre S/A e Chico Science & Nação Zumbi. Os denominados mangueboys e manguegirls têm seu próprio estilo e se sentem conectados por tudo aquilo com que o ritmo conversa, que na verdade seria o mundo e os gostos de cada um. O ritmo do mangue celebra a diferença e foge à unidade estética. A articulação entre os que se sentiam íntimos com a cena se dava pela vontade em comum do “não ter o que fazer”. Science disse: “não podemos perder o sentido da raiz, mas temos que falar de outras coisas que anunciam o futuro”. E assim foi feito.

Em 1992, os dois grupos Mundo Livre S/A e Chico Science & Nação Zumbi idealizaram o primeiro manifesto, escrito por Fred Quatro Zero. O texto tinha a pretensão de ser um release — um texto jornalístico, feito para informar os profissionais de alguma novidade — menos formal e que pudesse abrir caminhos para o novo. O manifesto trazia o conceito de mangue, citando a cidade que eles construíram, Manguetown, e por último explicando a cena do mangue com a seguinte frase: “emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto!”.

“Da lama ao caos”, primeiro disco de Chico Science & Nação Zumbi, foi o grande marco de 1994; três anos após o estouro do disco, morre Chico, em 1997. A tragédia aconteceu no mesmo ano em que o segundo manifesto, “Quanto vale uma vida”, foi escrito por Fred Zero Quatro e Renato L. O texto foi um pedido para que a cena continuasse e não parasse nunca. As antigas bandas permanecem e as novas continuam nascendo. Até hoje o Manguebeat está vivo e os mangueboys e girls se mantêm apaixonados.

Quando perguntado sobre o que o movimento representa atualmente, o mangueboy Allysson Flôres, estudante de Filosofia na Universidade de Brasília diz: “Manguebeat é a representação sonora da vida. Um movimento tipicamente brasileiro e nordestino que nasceu da dificuldade, visando a valorização do que o povo tem de melhor. É a vontade instigante de se mexer, fazer acontecer, mudar o que não te deixa contente através da cultura. Deixar de importar e começar a exportar, comer um mundo ruim e vomitar algo bom”.

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