Os conselhos de Tom Wolfe para fazer jornalismo literário

em

Arte por Bruna de Araujo

Texto por Amanda Venicio

Pode parecer pouco romântico, mas o jornalista Tom Wolfe atribui o surgimento do jornalismo literário a uma disputa de egos. Na introdução da coletânea The New Journalism, Wolfe divide os jornalistas entre dois tipos. Enquanto a maioria deles competia para ver quem conseguia a notícia mais quente o mais rápido possível – o tal do furo –, outros estavam dedicados a aspirações literárias. O jornalismo era só uma forma de ganhar experiência e desenvolver a escrita enquanto o Grande Romance não vinha. Os “novos jornalistas” competiam entre si para ver quem escrevia melhor e não tinham medo de atentar contra a literatura nem o jornalismo tradicionais, justamente porque não estavam conscientes do impacto que causariam.

 

O jornalismo literário não foi tanto um movimento quanto um acidente: de repente, muitas pessoas estavam fazendo a mesma coisa, mas sem uma consciência de pertencimento a um grupo ou a uma missão. Essa nova forma de fazer jornalismo empregava técnicas da literatura às matérias. Tom Wolfe acredita que o segredo de um texto de jornalismo literário está em quatro elementos.

 

CONSTRUÇÃO DE CENA POR CENA

Para Wolfe, o cerne do texto literário não é a informação – os dados –, mas sim a construção de cenas. “Os escritores mais talentosos são aqueles que conseguem manipular a memória do leitor de uma forma tão rica”, argumenta, “que conseguem criar dentro da mente dele um mundo inteiro o qual ressoa com as suas emoções verdadeiras”. Gay Talese, segundo Wolfe, usava um mural para dividir as suas histórias em blocos de cenas.

 

DIÁLOGO REALISTA

O jornalismo pega emprestado a técnica do Realismo para envolver o leitor. Em vez de descrever, o jornalista pode usar as falas como recurso para construir os personagens da história. Wolfe enfatiza a importância de anotar ou gravar tudo para conseguir esse efeito.

 

DETALHES

Esse provavelmente é o elemento mais complexo dos quatro. Wolfe acredita que o jornalista deve gravar todos os detalhes que possam ter algum significado simbólico para a história. Esses detalhes não devem ornamentar o texto, mas sim servir para criar uma atmosfera ou um significado. O jornalista cita como exemplo o romance A Prima Bette, de Balzac. O autor francês usa os objetos da sala de estar dos personagens Mounsier e Madame Marneffe para mostrar o status e as aspirações sociais deles. Um tapete barato que se deteriora com o tempo ou estátuas de gesso que imitam bronze servem para revelar a condição de alpinistas sociais.

 

PONTO DE VISTA

A última técnica consiste em apresentar a história pelo ponto de vista dos personagens. Isso não significa que o jornalista deve supor ou inventar sentimentos e reflexões. O ponto de vista é obtido por meio de entrevistas extensas e perguntas certeiras. Qualquer reconstrução psicológica deve ser baseada em fatos e investigação profunda dos personagens. Portanto, o texto do jornalismo literário é construído em um ritmo diferente do tradicional.


Tom Wolfe não entrega uma receita. Seja bombardeando o entrevistado com perguntas ou observando tudo silenciosamente, sem se fazer notar, Wolfe acredita que o estilo de apurar é uma “questão de personalidade”. O fato é que é preciso passar bastante tempo ao lado da fonte, e isso pode levantar uma série de questões éticas caso o jornalista desenvolva algum tipo de relação com ela – seja de amizade ou antipatia. Wolfe aconselha não se deixar paralisar por essas dúvidas: “Se o escritor não acredita que o que escreve é uma das atividades mais importantes acontecendo na civilização contemporânea, então ele deve seguir em frente para algo que acredite que seja”.

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