Transmídia: a toca do coelho na era digital

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Arte por Bruna de Araújo

Texto por Carolina Pavan

Um conceito presente no universo de séries e filmes, de jogos online e da própria internet é o de narrativas transmidiáticas. Essa nova realidade apresenta modelos de storytelling  – a técnica de contar histórias para engajar um público – que se desenrolam em diferentes plataformas. Ao unir o alcance da televisão, internet e ferramentas não virtuais, a transmissão fragmentada de uma mensagem ou história tende a ganhar o interesse do público: a audiência descobre um novo mundo ficcional a ser explorado.

Baseada em dois conceitos já consolidados – a existência de uma indústria do entretenimento e de uma integração pouco hierarquizada entre os emissores e o público –, as narrativas transmidiáticas não se preocupam somente em criar uma única boa história ou alguns bons personagens. Para que uma narrativa desse porte obtenha sucesso e atraia diferentes nichos de mercado, a criação de um rico universo e a exploração de mídias variadas se tornam iniciativas imprescindíveis.

Desde a segunda metade do século XX já é possível encontrar narrativas que fluem por diversas mídias  na indústria de entretenimento, sobretudo na indústria  norte-americana. No livro “Cultura da Convergência”, o professor de Jornalismo, Comunicação e Cinema da University of Southern Califórnia Henry Jenkins propõe o primeiro estudo sobre a chamada sinergia das mídias.

Jenkins mostra as importantes transformações culturais que aconteceram enquanto os meios convergem uns com os outros. A consolidação da cultura participativa que liga os fãs ao universo das grandes franquias consegue desenvolver expansões das histórias até alcançarem um patamar muitas vezes impensado pelos produtores.

A dinâmica das narrativas transmidiáticas se intensificou principalmente após a expansão dos usos da internet, e suas ferramentas permitiram que grupos de interesses se reunissem virtualmente para discutir sobre livros, séries e filmes preferidos. Spoilings (do inglês “estragar”) constituem na organização de grupos, virtuais ou não, que têm como objetivo desvendar informações ainda não reveladas. Fanfiction (termo que designa “ficção criado por fãs”) são histórias paralelas criadas por fãs a partir de personagens existentes. O bloguismo, que mantém grande variedade de publicações alternativas na internet, articula respostas à postagens geradas por meio de comunicação comercial.

Dentro das possibilidades que o cenário transmidiático oferece, algumas franquias se destacam pela sinergia alcançada entre as mídias. Contar histórias por meio de múltiplas plataformas para criar uma experiência unificada de entretenimento parece ser o diferencial de Star Wars, que é considerado o primeiro caso de narrativas transmidiáticas a obter grande sucesso comercial. A saga de George Lucas  não se manteve apenas em seis filmes: figuras de ação, romances, histórias em quadrinhos e vídeo games derivaram, com êxito, da história de Darth Vader e renderam lucros astronômicos ao criador dos filmes.

Outros exemplos como a série Lost e o filme A Bruxa de Blair engajaram o público em diversas plataformas midiáticas, explorando todas as possibilidades que as histórias ofereciam. A série se expandiu em múltiplas direções: três histórias em quadrinhos, dois livros, um jogo de realidade alternativa, um site falso da Oceanic Airlines (a companhia do avião acidentado), podcasts semanais discutindo os episódios da série e a Lostpedia – uma enciclopédia virtual colaborativa similar à Wikipédia, criada por fãs, que reúne informações sobre todos os itens do universo de Lost.

Já o filme A Bruxa de Blair utilizou a eficiência das narrativas transmidiáticas como estratégia de marketing para promover a obra. Pelo menos um ano antes do lançamento do filme os produtores plantaram pistas para despertar o interesse do público na lenda. Notícias falsas, discussões armadas, caricaturas forjadas, artefatos construídos pelo departamento de arte do filme e um site que reunia todas essas informações alimentaram as discussões sobre a existência da Bruxa de Burkittisville.

Esse novo moodo de contar histórias surge como uma resposta à convergência das mídias. A medida em que depende da participação ativa de comunidades de conhecimento, as narrativas transmidiáticas somam diferentes contribuições para a compreensão do universo narrativo e fazem novas exigências aos consumidores.

 

O analista de mídias Geoffrey Long explica que não basta contar a mesma história em diferentes plataformas. “A narrativa transmídia é uma história que una um meio (um longa, por exemplo) para contar o primeiro capítulo, outro meio de comunicação (os quadrinhos) para contar o segundo e uma terceira mídia (um jogo) para o seguinte. Cada capítulo deve servir como uma toca do coelho para que a audiência descubra a história, como fez Alice ao entrar no País das Maravilhas”, afirma o estudioso.

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