A profecia

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Por Felipe Neves

Se já existiu algum filme que está muito à frente do seu tempo, podemos dizer que ele é “Rede de Intrigas”, de 1976. Assim como George Orwell e Aldous Huxley fizeram em suas obras 1984 e Admirável Mundo Novo, respectivamente, o roteiro de Paddy Chayefsky é uma história com tom satírico. Ela descreve a sociedade da época, tendo a cena do jornalismo em televisão como protagonista, de uma maneira cínica. A diferença é que o roteirista não tentou prever como a mídia televisiva seria em anos, décadas ou séculos, mas assistir ‘Rede de Intrigas” é como sentar-se no sofá nesse exato momento e ligar a TV. O filme é  um espelho do que a televisão se tornou.  

Dirigido por Sidney Lumet, o filme conta a história de Howard Beale (Peter Finch), um âncora que trabalha há anos para uma rede de televisão, a UBS. O veterano já foi um grande sucesso para o canal, mas ultimamente a audiência do seu programa vem caindo ininterruptamente. Cabe então à seu amigo pessoal e chefe, Max Schumacher (William Holden), demití-lo pessoalmente. Beale, um homem solitário e com problemas de alcoolismo, perde a cabeça. Na sua próxima e última transmissão, o âncora promete que, em uma semana, vai cometer suicídio no programa ao vivo.

O choque e desespero tomam conta dos funcionários da emissora, não pela vida de Beale, mas pelos problemas que tal cena trariam para a UBS. O provável futuro suicida, então, parece retomar os sentidos, e pede por uma outra chance para se desculpar ao vivo no que seria sua última transmissão. Mas o que se vê é um Howard Beale furioso e indignado com as injustiças da vida, gritando e xingando contra a câmera.

É aqui que entra a personagem Diana Christensen, interpretada por Faye Dunaway. Diana é a recém-contratada chefe do Departamento de Programação da emissora, e, após ver que o discurso indignado de Beale elevou a audiência do canal à números há muito não vistos, convence um dos chefes da emissora, Frank Hackett (Robert Duvall) a não apenas manter Howard Beale, como transformá-lo no personagem principal de seu próprio programa, o “The Howard Beale Show”.

"Rede de Intrigas" ganhou quatro estatuetas no Oscar, dentre elas Melhor Ator para Finch (à esquerda) e Melhor Atriz para Dunaway (à direita).
“Rede de Intrigas” ganhou quatro estatuetas no Oscar, dentre elas Melhor Ator para Finch (à esquerda) e Melhor Atriz para Dunaway (à direita).

Diana é uma personagem fria e calculista, que faria de tudo por números altos de audiência, pois segundo a mesma, o trabalho é a única coisa em que ela é boa na vida. Christensen é claramente uma personificação dos grandes executivos que chefiam as grandes emissoras de televisão atualmente. Uma personagem cruel e maquiavélica, para quem notícias de guerra, morte e fome são a mesma coisa que notícias sobre canecos de cerveja. A audiência é a única coisa que importa.

“The Howard Beale Show” se torna o programa mais visto da televisão americana, explorando a loucura do lunático Beale, que acredita estar ouvindo vozes as quais o mandam dizer a verdade. “Mas porquê eu?” pergunta Beale. “Porque você está na televisão, bobo”, responde a voz. Apoiado por um elenco no mínimo curioso, que conta com uma vidente e outras atrações exóticas, o programa parece uma profecia do que hoje viriam a se tornar os muito populares programas de auditório.  

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Beale e um dos seus discursos insanos

Uma cena impactante do filme é quando um dos donos da emissora, Arthur Jensen (Ned Beatty) discursa sobre como atualmente não existem países nem ideologias. Os Estados Unidos e a União Soviética não significam nada, o comunismo e o capitalismo são piadas. Quem controla o mundo são as grandes empresas. Essas são os países de verdade, e nós vivemos sobre suas leis. O indivíduo é um ser moribundo que está respirando por aparelhos. Deixamos de ser humanos para virar humanóides. Cada um tem seu papel robótico na sociedade e a individualidade está morrendo.

A geração que cresceu vendo televisão e tomando aquilo por verdade hoje é domada por ela. Indiferente ao sofrimento, insensível à alegria. A vida é reduzida ao confortável e seguro abraço da banalidade. “Rede de Intrigas” é um excelente relato de como a mídia tem grande influência nas pessoas e de como as corporações estão dispostas a fazer qualquer coisa para alcançar números e lucros cada vez maiores. Como a personagem Diana Christensen diz: “A televisão não é só notícias, a televisão é um show business“.

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