Muito além dos caracteres

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Por Beatriz Queiroz

A euforia de mais uma publicação era visível nos corredores da Faculdade de Comunicação (FAC). Os repórteres estavam com os primeiros exemplares, os exclusivos, e os mostravam para todos que conheciam. O jornal ainda não tinha sido distribuído e já parecia um sucesso. Uma semana depois ele já ocupa todos os campi e não é mais dos alunos da FAC, é da Universidade. O número 1 dos alunos do sexto semestre, o número 410 de uma história com mais de 40 anos.

Foi na sala dos Papiros, prédio da atual Faculdade de Educação, que a conversa se deu e onde o Campus montou sua primeira redação. Salomão Amorim e Luiz Gonzaga Motta, então professores da FAC e fundadores do jornal, conversavam sobre o desconforto de ensinar jornalismo sem prática. Analisaram alguns pontos e perceberam que era possível juntar as disciplinas Técnicas de Jornal e Periódico I e II, Paginação e Revisão e Edição Jornalística em um bloco e ter os alunos disponíveis todas as manhãs para viver a realidade da produção jornalística.

O nome da publicação é inspirado em um jornal de Londrina que se chamava A Cidade. “Por que não? Essa é a nossa cidade”, considerou Manoel Vilela de Magalhães.  Vilela, o primeiro professor da disciplina, foi quem o escolheu. Além do Campus, foi criado O Muro. Ele era o jornal mural, que, editado semanalmente, permitia maior fluxo de notícias e ocupava o espaço que a falta de periodicidade do Campus deixava. O Muro circulou apenas por sete anos (19972-1979), mas abriu espaço para outras ideias.

O Muro
O Muro

Uma delas eram os suplementos. Ricardão, para suprir a necessidade de novas experiências. O suplemento veio depois do Campim e do Ideias, e foi o primeiro a permitir que os alunos tomassem conta de tudo. O planejamento editorial, as pautas, a diagramação. Depois vieram Agnaldo, Braulio, Plug, Segundo, Bis. Cada suplemento com as características das turmas que os fizeram.

Em 1981, foi feito um projeto para o novo Campus. O estágio para estudantes de jornalismo tinha sido proibido e a disciplina era a única forma de ter experiência, então ele precisava ser reformulado. O estudante Hugo Studart fez o projeto gráfico. Inspirado no jornal Diário Popular de São Paulo, ele resgatou O Muro na página 2. A página continha notas acompanhadas de um mini editorial e do expediente na parte inferior. 33 anos depois, o Campus ainda tem o expediente no mesmo lugar e o editorial na mesma página. As notas deram lugar à Memória, ao Recorte e ao Ombudsman.

Palavra sueca que significa “provedor de justiça”, Ombudsman é a pessoa que discute o conteúdo do jornal a partir da perspectiva do leitor. Fernando Oliveira Paulino foi o primeiro a ocupar esse cargo no Campus, antes mesmo de ser repórter do jornal-laboratório. “Eu tenho a impressão que o Campus inovou em ter criado o serviço de Ombudsman ocupado por um estudante”, afirmou Paulino. Ideia do SOS Imprensa, projeto de pesquisa criado pelo professor Luiz Martins, a crítica foi incorporado ao jornal na década de 1990.

Laboratório do Campus na década de 1970 e hoje

Mas não só de textos jornalísticos vivia o Campus. “Marisa. Você é linda. Vital.” Uma declaração mal sucedida e conhecida como Calhau do Vital. Calhau é um espaço em branco no jornal que pode ser ocasionado por problemas na diagramação ou queda de matérias, o espaço costuma ser preenchido com anúncios ou chamadas do próprio veículo. Vital editou o Campus para ter esse espaço e colocou seu anúncio. Além da garota não gostar, Vital foi repreendido por Ijalmar Nogueira, então professor do jornal-laboratório.

Olivetti e Remington, as máquinas de escrever, se despediram do Campus na década de 1990, à medida que foram trocadas por computadores. A informatização do jornal-laboratório começou em 1994. A mudança permitiu que a produção fosse totalmente feita pelos alunos: agora eles podiam tratar as fotos e diagramar os jornais. Mas não foi fácil, era uma tecnologia nova e a maioria dos alunos não sabia mexer direito, mas no 1/1995 ele ganhou o prêmio de Melhor Jornal-laboratório do Cone Sul.

Além do Cone Sul, ele ganhou o Grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo em 1997. Com a edição especial de 30 anos, primeira edição colorida, ganhou o prêmio Líbero Badaró de Jornalismo e o Imprensa, em 2001. Algumas das premiações vieram devido ao engajamento político comum ao Campus nos seus primeiros anos. Ele viu a ditadura, greves gerais na UnB, Tancredo na Universidade e a morte do mesmo. Um dos prêmios veio com o especial de 30 anos sobre a morte de Carlos Lamarca.

O Campus renderia um livro a cada número, uma coleção por semestre. O número em que havia crônicas, o que trouxe os suplementos, o da galeria de fotos, os especiais. Todos com muitas histórias que não estão impressas nas páginas. Mas são elas, a verdadeira essência do jornal-laboratório que tem mais de 40 anos de história e ainda fascina os alunos que não ficam mais dois, três, quatro semestres, mas só um. Um que mal dá tempo de fazer tudo que queriam, mas é suficiente para ter experiências inesquecíveis.

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