Das capas da Vogue para o front

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Por Amanda Venicio

Descoberta em 1927 ao ser salva de um possível atropelamento por Condé Nast, fundador da revista Vogue, Lee Miller foi uma das modelos mais procuradas de Nova York por dois anos. Após polêmica envolvendo anúncio de absorventes, Miller se mudou para Paris, onde aprendeu a fotografar com Man Ray e tornou-se uma figura proeminente do surrealismo. Semelhanças com o roteiro de Cinderela em Paris, porém, param por aí. Em 1932, a ex-modelo casou-se com um homem de negócios egípcio e foi morar em Cairo. Seis anos mais tarde, quando iniciou-se oficialmente a Segunda Guerra Mundial, Miller foi parar em Londres, onde começou a trabalhar como fotógrafa de moda para a Vogue. Em 1940, começaram os ataques alemães à cidade londrina, e a sua vida passaria por mais uma mudança drástica.

Após os bombardeios, Miller ia às ruas fotografar os escombros. Em 1942, conseguiu se filiar como correspondente autorizada pelo exército dos EUA. Suas matérias e fotos passaram a ser publicadas nas edições americana e britânica da Vogue a partir de 1944. Condé Nast buscava uma nova imagem para a revista: “Não devemos permitir que pensem na Vogue como um periódico realmente frívolo, inconsciente dos sérios desafios que têm acontecido na vida, nos interesses e na psicologia das mulheres”.  Os artigos de Miller se encaixavam perfeitamente nessa missão. Audrey Whiters, então editora da Vogue britânica, relembra-se: “Foi a experiência jornalística mais empolgante da guerra. Nós éramos os últimos que poderiam imaginar tendo esse tipo de artigo, parecia tão incongruente entre nossas páginas de moda”.

Passaporte da ex-modelo e fotógrafa, emitido em 1942.
Passaporte da ex-modelo e fotógrafa, emitido em 1942.

 Não era permitido que mulheres jornalistas viajassem sozinhas. Elas deveriam ficar fora do front, junto com as enfermeiras. Em junho, no Dia D, as jornalistas foram ordenadas a permanecerem na Inglaterra. Apenas no mês seguinte foi liberada a cobertura por mulheres dos eventos na França. Armada com uma Rolleiflex e uma Baby Hermes, Miller era creditada pela Vogue britânica como “a primeira mulher fotógrafa a visitar a Normandia”. Cobriu o primeiro uso da arma química napalm em St. Malo, a liberação de Paris e a batalha de Luxemburgo e Alsácia. A fotógrafa também visitou os campos de concentração de Buchenwald e Dachau.

Em 1945, acompanhada pelo fotógrafo David E. Scherman, Miller passou a noite no apartamento abandonado de Hitler em Munique. Em seu diário, criticou a qualidade da arte pendurada nas paredes do Führer. Com o armistício, migrou para o Leste Europeu, fotografando as consequências da guerra. Retratou as vidas dos aristocratas decadentes e dos camponeses de Budapeste, assim como a execução do Primeiro Ministro húngaro.

Miller na banheira de Hitler, em Munique. A foto foi tirada pelo fotógrafo David E. Scherman, que a acompanhou em diversas coberturas.
Miller na banheira de Hitler, em Munique. A foto foi tirada pelo fotógrafo David E. Scherman, que a acompanhou em diversas coberturas.

 Os artigos e fotos de Lee Miller desafiam o conceito de objetividade jornalística. Embora a fotógrafa aspirasse a um trabalho meramente “documentário”, suas fotos são extremamente autorais e manipuladas esteticamente, herança da tradição surrealista. Seu fotojornalismo afrontava “a propaganda  e a retórica do nacionalismo empregadas pelos Estados Unidos”. O resultado é uma obra que não se limita a retratar fatos. Prevalece nas fotos o sentimento de perda e trauma provocado pela guerra. Seus textos seguem uma linha similar: são relatos intimistas, escritos em primeira pessoa, priorizando sentidos e emoções.

A guerra marcou profundamente a fotógrafa. Miller desenvolveu estresse pós-traumático e trocou a fotografia profissional pelas panelas da cozinha na Farley Farm House, em Sussex, propriedade que dividia com o segundo marido, o também surrealista Roland Penrose. Tornou-se alcóolatra e uma pessoa de difícil convivência, que passava a maior parte do tempo elaborando receitas. Seu filho, Arthur Penrose, conta que ela nunca lhe havia mencionado a cobertura da guerra. Foi procurando por fotos de infância no porão, após a morte de Miller em 1977, que Penrose encontrou uma pilha de caixas de papelão contendo mapas, cartas e cerca de 60 mil negativos. Desde então, a sua vida tem sido dedicada à divulgação do trabalho da mãe.

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